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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sereia- 11

Não entendi a razão de Gin me deixar sozinha na casa e correr pra longe. Não entendi porque ele chamou por Margot tão furiosamente. Ela não estava morta? A Rainha não a matara? Aquilo não era da minha conta, era? Melhor seria se eu apenas descansasse. Precisava de um banho e era isso que eu iria fazer. Assim que descobrisse onde ficava o banheiro. Comecei a andar pelos corredores da pequena casa. Havia um comodo, ao lado da sala. Hesitei antes de empurrar a porta, mas não havia necessidade de hesitação. A casa era minha, não ?
-Não entre aí, menina. - ouvi uma voz, nas minhas costas e me virei, assustada.
-Quem é?
-Leon. Irmão de Gin. - ele se abaixou, reverenciando-me. Leon não era nada parecido com Gin. Ele era magricela e tinha os cabelos curtos e crespos, embora fosse muito branco. Vestia uma roupa engraçada, com sapatos pontudos. Me perguntei se todos ali se vestiam assim, mas logo afastei a ideia.
-Gin não me disse nada sobre ter um irmão. - recuei. Tinha plena certeza de que tinha que estar em alerta para tudo.
-Não há necessidade de se afastar de mim, ou me desejar fora. Há muito que Gin não poderá te explicar. Talvez eu possa. - ele tentou se aproximar, lentamente - como por exemplo, a razão de você não poder entrar nesse quarto.
Olhei pra porta, receosa.
-Vá em frente- encorajou-me ele - tente entrar.
-Qual seu nome mesmo? - fingi ignorar o que ele dissera. - Leon, certo? Por que você simplismente não sai da minha casa e volta quando Gin estiver aqui. Quero ouvi-lo dizer que você é quem diz que é e que posso confiar em você.
-Se assim deseja, Majestade - ele se curvou, novamente - Mas... Por que não o intima a vir agora? A sua ligação está com problema de confiança? - vi um sorriso muito sarcástico nascer no canto de seu lábio.
-Nossa ligação está ótima, senhor Leon. Por gentileza, deixe-me. - usar esse vocabulário ainda me era estranho.
-E onde está seu tão confiável Guardião? Deixar uma Rainha assim... Desprotegida. Não é algo comum de Gin - Ele se aproximou de mim. Observei enquanto seu braço lentamente obtinha uma coloração marrom, e seus dedos se fechavam, como a ponta de uma lança. Recuei. Minha respiração se tornou mais rápida e intensa, até que o ar começou a pesar ao meu redor.
-O que foi, Majestade? - ele se aproximou e eu recuei, até tocar na parede, ao lado da porta que ele me instigou a entrar. - está assustada, querida?
-Não... se... aproxime - Respirei fundo e controlei a respiração. Tentei ao máximo, reunir toda a pressão que eu sentia sair do meu corpo, e focar em um só alvo : Leon.
-Norah! Querida! Não haja assim... Vamos nos divertir, aqui. - Leon tocou meu rosto com a ponta do seu braço e fez um risco. Hesitei por um segundo, e logo depois, despejei toda a pressão na direção dele. Ouvi um grito e barulho de vidro quebrando por todos os lados. Leon estava jogado no outro lado da sala, quando abri os olhos. Havia sangue no corpo inteiro, exceto no braço pontudo. Recuei. Desejei mais do que nunca, Gin ali, perto para me guardar. Era esse o trabalho dele, não era? Era por isso que eu o chamava de Guardião.
Alguns minutos se passaram, antes que algo se movesse na casa. Eu estava em choque. Não sabia dizer o que eu havia feito. Não queria dizer. Eu havia ferido alguém, e isso nunca seria algo que eu me orgulharia. Nunca. Escorreguei pela parede, até sentar no chão. Meus olhos não desgrudavam de Leon, do outro lado. Eu sentia medo, mas não demonstrava isso. Estava apavorada. Queria ir perto dele, e ver se estava vivo, se seu coração batia ou se ainda respirava, como o técnico de natação nos ensinou a fazer, no 5º ano, mas permaneci imóvel, observando-o. Eu senti meu corpo rígido se mover lentamente. Digo que senti, porque eu definitivamente não estava controlando aquilo. Assisti enquanto meu braço se esticava e me ouvir pronunciar algumas palavras logo após, meu corpo começou a ferver, e do meu braço esquerdo, surgiram escamas. As escamas saíam dolorosamente, enroscando e tomando o lugar de cada pedacinho de pele, desde as pontas dos dedos, até o cotovelo. Aquela massa dura e branca parou de crescer, e eu comecei a gritar. Aquilo começou a apertar e parecia que estava quebrando meus ossos.
-GIN! - chorei - Por favor, Gin ! Gin !
-Norah... Ele não vai te ouvir. - Leon levantou-se, cambaleando. - Mas , nossa, garota... Você é forte!
-Faz isso parar, por favor - arfei, entre gritos.
-Fazer parar ? Agora que estou começando. - ele se aproximou de mim - sabe o que está acontecendo agora?
-Por favor...  - gemi - por favor, Leon.
-Nesse exato segundo, eu estou fechando minhas escamas em você. Esse é meu ataque. Elas se fincam na vitima, e vão quebrando os ossos, tomando o lugar na pele, e subindo... - as escamas realmente começavam a subir. Avançaram pelo cotovelo e chegaram ao ombro. - subindo... até que chega nas partes vitais da pessoa... E aí...
-E aí, meu caro Leon, você é detido. De novo. - Uma voz surgiu atrás de mim. Meu braço parou de doer, e começou a formigar. A massa branca, começou a regredir, até que atingiu a ponta dos meus dedos, e caiu no chão, como se fosse um misero pedaço de unha quebrada. Atordoada, me levantei, buscando apoio na parede atrás de mim.
-Mirla. Hum. Você. - Leon respondeu, entediado. - O que uma vadiazinha como você está fazendo aqui?
-Eu teria mais respeito, Leon. Lembre-se sempre de quem eu sou. - Levantei a cabeça e enxerguei uma pequena forma na minha frente. Era uma criança. Apenas uma criança. Ela tinha um cabelo ruivo muito longo, e usava uma saia curta, e uma blusa de rendas, justa. Seus olhos verdes e enormes se focaram em mim - Você está bem, minha querida?
-Sim, eu acho. - respondi, tocando meu braço, e o movimentando. - Sim, estou. Hum.. Quem é você ?
-Sou Mirla. - ela curvou-se - Quinta Anciã. Protetora das fontes e da magia Verde, asseguradora da regeneração.
-Hum... Sou...
-Norah - ela me interrompeu. Eu ainda estava confusa com todos os títulos que ela mencionara - Creio que toda Ilhad a conhece, minha querida.- Sua voz era suave, e me acalmou. - Mas, vamos ao que importa. Leon. Espero que saiba que será punido. Essa não é apenas mais uma Sereia chegada. Ela é a Majestade. A Rainha. Imperatriz das Aguas. Como ousa atacá-la? Quer realmente ser mandado para longe de Ilhad para sempre? Mais uma ação como essa, e você será. Fui clara?
Os olhos de Leon se arregalaram. Ele não parecia realmente saber quem eu era. Para ele, as palavras de Mirla estavam confusas.
-Não achei que ela realmente fosse a Rainha do século. Realmente não. A mutação foi muito tardia. A fonte quase se secou. Ela não poderia ser. - ele disse mais para si mesmo, do que para Mirla. Não entendia nenhuma palavra com clareza.
-Mas ela é. E como Guardião de Margot, não é preferível que você esteja aqui. Ela quer você de volta, meu jovem. Até quebrarmos a ligação de vocês, é seguro que não fique por aí, correndo o risco de estar na frente de um saco de confusão e fúria, que pode ser despejado em você - ela levemente inclinou a cabeça na minha direção- fui clara? - Ela aproximou-se dele, com doçura e acariciou seus cabelos - Estamos fazendo muito para que você viva... Não desperdice isso quando a sua morte resultaria no fim dos problemas de Ilhad, meu caro.
-NORAH! - Gin entrou exasperado na casa e me olhou, confuso. - Leon?! Mirla?! Que diabos aconteceu aqui?!
Mirla o olhou com atenção e fechou a cara. Sua expressão ficou nublada.
-Como assim "o que diabos aconteceu aqui?" ? Sua ligação não foi feita? E você a deixa sozinha, sem a ligação?! - Mirla gritou. Sua voz estava aguda demais, quase feriu meus ouvidos.
-Não, não - disse Gin, afastando-se de Mirla e indo aconchegar-se atrás de Leon. Meu Guardião era um frouxo!
-Você sabe o que isso quer dizer, não é Gin?! - Mirla usava um tom muito sério. Eu senti vontade de rir, e de alguma forma, vi Gin soltando risinhos do outro lado da sala. - Você ousa rir?!
-É Norah! Ela está achando graça ! Ela! Juro! - Ele sorria freneticamente, como eu queria fazer. Não entendia porque meus lábios estavam selados. Meu rosto estava imparcial.
-Norah? - Mirla fitou-me. A vontade de rir saiu e eu senti medo. Seus olhos eram ameaçadores - Você me acha engraçada? - aquilo foi engraçado, vindo de uma criança, mas nem por um segundo pensei em dizer sim.
-Não! - meus olhos se arregalaram, e ela sorriu. Sorriu não, gargalhou. -Gin? - ele se aproximou de mim, lentamente, olhando fixamente para Mirla. Leon gargalhou em seguida.
-Bem vinda, Norah! - Mirla abraçou-me calorosamente. Fiqei sem me mover, um pouco. Estava desnorteada. O que houve ali mesmo?
-Hum.. oh... O... Obrigada. - acho que sorri. Não exatamente porque quis. Olhei pra Gin, e ele me encorajou, com o olhar.
-Anime-se, Norah! Esse é seu lar! - ela se afastou e sorriu. Delicadamente, ela colocou a palma da mão sob meu peito, e recitou algumas palavras. Quando terminou, toda a destruição que causei dentro da casa foi desfeita. Cada misero pedaço de vidro quebrado, e parede rachada voltava ao seu lugar. Como mágica. Eu amei aquilo. Me assustava, mas eu amei.
-Enfim. Preciso levar Leon de volta ao seus aposentos. - Mirla lançou um olhar severo - de onde ele não devia ter saído. Espero que goste do lugar, Norah. Gin o montou durante anos. Ele não parava de tagarelar sobre como a nova Rainha era linda e espontânea. O Conselho estava quase indo buscá-la pessoalmente para ver se assim ele se calava. Tenho dó de  Anne B...
-Já entendemos, Mirla. - Gin afirmou, vermelho, olhando pra mim pelos cantos. - Por que não leva meu irmão? Eu e Norah temos muito que conversar.
-Hum... - Mirla o lançou um olhar misterioso - Tudo bem. Seja prudente.
Ela sorriu e delicadamente saltitou para fora da casa.
Gin lançou-se no sofá.
-Não tem algo pra me contar, Guardião?! - surtei.
-Ah, sim. Leon é meu irmão. - Ele sorriu e pegou uma revista.

domingo, 26 de maio de 2013

Sereia - Parte 10

Aquela estranha sensação de familiaridade tomou conta de mim quando Gin me levou ao que seria meu "lugar" em Ilhad. Era uma casa pequena, e muito intrigante, parecia feita especialmente para mim. Seu muro baixo, grade preta e um pequeno jardim, que eu cuidaria com cuidado, me chamavam. Esperavam por mim ali há anos. A porta era branca e tinha um N. G. talhado em vermelho. Não lembrei de início o que as letras queriam dizer. Gin se apressou e abriu caminho. A parte de dentro era perfeita... Parecia que eu havia desenhado e construído o lugar todo, tudo se encaixava perfeitamente, como se cada móvel fosse uma parte exclusiva do ambiente. Nunca havia sentido aquela confiança por estar em um lugar, como estava sentindo naquela hora. Como se eu pudesse fazer tudo, como se eu pudesse ser tudo. E eu podia.
-Norah? - Gin me chamou, virei distraidamente e o vi pegando uma pequena caixa que parecia talhada a mão.
-Sim?
-Isso pertenceu a todas as Sereias Mestras de Ilhad. E como parte da tradição, eu, Gin, Seu Guardião e Protetor, estou lhe oferecendo, em nome do Reino, a nossa benção e proteção.
Ele recitava as palavras como se fossem parte de um ritual. Havia segurança em sua voz. Havia confiança em cada gesto, e até sua respiração estava controlada. Como se ele estivesse esperando por isso ansiosamente, e estivesse aproveitando deliciosamente aquele momento. Como eu estava. A sensação de ser uma Sereia Mestra era incrível. Eu sentia poder no meu sangue sempre que pensava nisso. Sentia uma pressão deliciosa no fundo do estomago, que se espalhava por todo o corpo.
Ele retirou um colar com uma pedra grande e viva, como a que eu carregava no meu pescoço, mas muito maior. A minha pedra começou a se aquecer no meu peito, e foi como se as duas se chamassem. Gin delicadamente retirou o meu cordão e juntou com o que ele trouxera.
-Sua conexão com a Sereia Suprema esta feita. Sempre que estiver em perigo, ela saberá e mandará ajuda. Assim como eu sempre saberei.
Sorri. Não entendi ao certo o que aquilo queria dizer, mas sorri. Ele entregou de volta meu medalhão.
-Está feito, criança. - Gin guardou a pequena caixa que trouxera em um saco de veludo grosso e verde, depositando delicadamente sobre uma mesa de centro que estava na sala.
-Obrigada, guardião. - disse cordialmente. Me pareceu necessário cordialidade. - Essa é minha casa?
-Hum... - ele hesitou - nossa.
Passava meus dedos delicadamente em cima de uma mesa de centro, e parei quando ouvi suas palavras. O que ele queria dizer com "nossa"? Não estava realmente disposta a dividir minha casa com ele. Não entendia nem como eu podia chamar aquele lugar de "minha casa" estando somente há uns vinte minutos lá. Era como se eu vivesse a vida inteira ali, e que a casa de janela grande de frente pro mar, fosse somente uma casa de veraneio. Eu pertencia aquele lugar pequeno, seguro e feito para mim. Era meu lugar no mundo.
-Sim. Nossa. - ele sorriu. Gin era um cara realmente bonito. Seu sorisso era encantador e por um segundo, eu me distraí pensando sobre isso.  - Guardiões e Sereias vivem juntos, Norah.
-Hum... Posso pensar sobre isso mais tarde, também. - sacudi a cabeça. Alerta de assunto a se pensar depois. Como tudo ali. - ao menos eu tenho um quarto próprio? Ou dividiremos a cama também? Porque, sabe eu andei pensando, e...
-Você terá seu quarto. E vejo que já está confortável, fazendo suas piadas imorais. Você só faz isso quando se sente familiriazida, não é?
Cerrei os dentes.
-Hum... Não pense que sabe tudo sobre mim, Guardião. Está enganado.
-Você está enganada, Norah. Já disse. Te observo desde o berço. Sei cada passo seu e me lembro de cada misero detalhe... Desde suas birras por mamadeira, ou por doce quando era um bebê, até a forma que você chorou quando Leon, seu primeiro namorado te deu um pé na bunda - ele riu e eu corei. Lembrar de Leon não era exatamente legal. Cruzei meus braços - Qualé, Norah. Não precisa entrar na defensiva. E trate de desbloquear seus sentimentos. Não sinto nada vindo de você, e isso não é legal. A ligação tem que estar todo o tempo ativa. Pelo seu bem.
-Eu me viro. Amanhã conversamos... Tudo o que eu quero é tomar um banho e relaxar, Guardião. Estou cansada e minha cabeça está a mil! Poderia dormir por um milênio!
-Não seria a primeira a fazer isso. - ele sorriu.
-O que... ? Deixa. Não preciso saber sobre isso agora, certo? Onde fica o banheiro e onde é o meu quarto?
-Hum... Não mostrarei agora. Antes, tem um lugar que eu quero que você conheça.  É preciso caminhar um pouco, mas valerá a pena.
Considerei por uns segundos.
-Onde é? - perguntei, fingindo desinteresse e mergulhando no sofá marrom-esverdeado do outro lado da sala.
-No coração de Ilhad.
Aquelas palavras me estremeceram. Em uma serie de flash's eu vi uma floresta muita bonita, com uma fonte no meio. A agua era tão limpa que dava pra ver os peixes nadando lá em baixo. Era como se a água me chamasse. E então tudo escureceu. Eu arfei.
-Norah ! - Gin chamou, e de repente, tudo escureceu novamente. Acho que estava ficando de saco cheio, de tudo escurecendo.

-Merda Norah ! - Ouvi Gin gritar. Ele me segurava muito perto do seu peito, e parecia preocupado. Minha cabeça girava e eu queria vomitar.
-O que? Me solta, seu idiota! - o empurrei para longe. - Mas que saco! O que houve?! O que você fez com a minha cabeça?!
-Como assim? Do que você tá falando? - ele pareceu realmente confuso - Você simplismente criou uma bolha de ar e quase destruiu a casa! Sorte que eu te controlei!
-Não criei não! Deve ter sido você ! Afinal, conseguiu entrar na minha cabeça e me fazer ver aqueles flash's idiotas! Que saco Gin! - Me levantei depressa, colocando a mão na boca. Realmente queria vomitar.
-Flash's? - Gin ficou sério.
-Sim. Foi isso que eu disse.
-O que você viu? - sua voz era carregada. Me senti com medo. Ele estava com medo.
-Não sei. Acho que uma floresta, sei lá. Aí tudo ficou escuro e pá! Você estava quase me beijando. Só isso.
-Uma floresta? - ele sussurrou. - Havia uma fonte?
-Sim. Uma bela fonte! A fonte me chamava, eu acho. Eu ouvi. E ... Haviam peixes.
-Margot! VADIA! - Gin berrou e saiu pela porta.


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Sereia - Parte 9

-Fazem seis meses.
Seis meses?!
-Sim. Fazem seis meses desde que Margot te encontrou, naquela praia e te arrastou para o mar.  - ele me olhou duvidoso. Eu estava zonza por causa dos comprimidos e não sabia dizer exatamente como o rosto dele estava.
Esfreguei a face algumas vezes, na tentativa de passar a tontura, mas nada adiantou.
-Nossa, Norah. Você é mais fraca do que eu esperava. - Gin afirmou e me segurou, colocando-me inclinada na cama. - Você deve ficar de cabeça inclinada, ouviu bem? Não se mova. Eu volto já, com curandeiras. Não se mova.
 E saiu do quarto. Curandeiras? Não tive tempo o suficiente para pensar nisso, já q desabei no chão. Gin voltou rapidamente com duas mulheres e riu.
-Norah! Você é mesmo muito fraca! - ele me apoiou de volta para a cama.
-Fico tocada, Gin. Aposto que eu não podia ter tomado aqueles comprimidos. Ninguém em sã consciência faria isso, faria? - comecei a tagarelar, meio grogue.
-Faça-nos um favor e mantenha-se de boca fechada, sim? - Gin realmente sabia ser chato.
Obedeci, enquanto as duas mulheres me deram um tipo de liquido e uma delas tocou delicadamente minha testa e sussurrou algo. Quase instantaneamente me senti menos zonza.
-Obrigado, Marília. - Gin agradeceu uma das mulheres. As duas se retiraram sem dizer uma palavra.
Pisquei várias vezes, fazendo minha visão desembaçar. Logo voltei ao normal. Quero dizer, completamente normal. Minhas pernas estavam ali, inteiras.
-Gin! - quase gritei, de entusiasmo por me ver completa.
-Vá com calma, moça. Fazem seis meses que você não se levanta. Vamos devagar...
Concordei, apoiando-me nele. Senti um cheiro familiar... Por um instante não nos movemos. Eu senti como se eu o conhecesse desde minha infância, como se ele fizesse parte de toda minha vida.
-Vamos, Norah... - ele me puxou quebrando totalmente o frenesi.
Demos um passo por vez, o que tornou a tarefa mais fácil. Minhas pernas estavam bambas e eu sentia uma fome imensa.
-Você está indo bem, querida. - Gin elogiou.
-Não me chame assim, guardião. - sibilei.
Ele se manteve calado. Minha hostilidade o estava afastando de mim, e eu estava bem com isso. Imaginei que me manter afastada de todos daquele mundo estranho, iria tornar fácil a tarefa de ir embora.
Ingenua.
Caminhamos para fora daquele quarto e entramos em um corredor com várias portas. Aquilo era uma especie de enfermaria sinistra. Gin estava sempre atento aos meus movimentos, tomando cuidado para que eu não tombasse em momento algum, mas não pronunciou uma palavra sequer. Encontramos uma porta grande e espelhada e ela se abriu. Quando saímos, senti o peito do pé esquentar e dei um pequeno salto, e foi quando eu percebi que estava descalça. Gin me olhou divertido, mas não disse nada. Continuamos a andar.
O silencio se tornou um incomodo. Me sentia torturada ali.
-Então, Guardião, quantos anos tem? - perguntei, tentando começar algo como uma conversa.
Ele riu.
-Você é uma Sereia, acabou de conhecer sua mãe biológica  quase morreu, sua vida toda foi uma mentira e o que me pergunta é a minha idade? Sério, Norah?
-Bom... A ficha ainda não caiu, Gin. Eu estou bem por enquanto... Pretendo me distrair e não pensar que sou um peixe grande e toda essa coisa de ... "coitada de mim, minha vida era uma mentira" - ironizei -   Entende?
-Um peixe? Entendo... Não diga isso em voz alta, está bem? Muitos daqui odeiam esse termo. - ele disse, confidenciando. Sorri para ele.
-Ok, Guardião. Quantos anos tem? - insisti.
-Anos humanos? Tenho cerca de 200. De baixo d'água, tenho 20.
Oi?
-Hm... legal... - tentei raciocinar, e decidi que isso seria um dos assuntos a se pensar depois. O panico não me pegaria ali, naquele momento. - Você disse que me conhecia... O quanto conhece ?
-Cada passo que você deu, desde o nascimento. - ele me olhou, de beirada, esperando uma reação alterada. Respirei fundo.
-Isso é muito tempo, Guardião.
Ele assentiu e o silencio voltou. Nós caminhamos por uma praça e sentamos em um banco feito de tora de madeira polida, em frente a um lago. Era uma ilha muito diferente... Era linda. O céu era claro e aberto, haviam muitos pássaros e pessoas normais andando. Fiquei observando enquanto passavam por nós, e olhando para tudo o que eu pudesse, tocando tudo o que estava ao meu alcance. Parecia uma criança  descobrindo as funções de um brinquedo novo. Era estranho o fato de eu me sentir bem ali, sentir segurança em um lugar que eu nunca estive antes. Era novidade demais para lidar. Dores demais para curar. Coisa demais para alguém como eu. Fraca.
-No que está pensando, Norah? - Gin perguntou, puxando-me para perto dele. A proximidade me deixou constrangida e desconfortável.
-Não tão perto, Guardião - afastei - Não estou pensando em nada, na verdade. Apenas olhando... É tudo tão lindo...
Ele riu.
-Eu posso ouvir cada pensamento seu, Norah. - ele me olhou. Essa situação parecia divertida para ele. Que tipo de entreterimento era esse?
 -Pode? - olhei duvidosa. Aquilo não me parecia certo, ou racional. Estava com medo.
-Sim. Se você deixar - ele suspirou.
-Mas eu nunca deixei. - disse firme.
-Sim, você deixou. Quando disse que confiava em mim.
-O que? Não, não Guardião. - me levantei assustada. O que aquilo queria dizer, exatamente?
-Norah, sente-se. Não faça uma cena aqui. - ele me forçou a sentar. De alguma forma, não consegui abrir a boca ou me mover. Respirei forte, lutando contra aquilo. - eu vou te soltar. Não grite. Temos ouvidos sensíveis e você uma boa voz. Concorde e eu te solto.
Permaneci ali, parada respirando forte. Ele me soltou.
-Que merda foi essa, Guardião? - disse, por meio a suspiros.
-Eu tenho controle sobre seu corpo... - ele hesitou - assim como você tem, sobre o meu.
-Não. - controlei meu surto - não, Guardião. Acho que ... Acho que já basta ! Entende ? - me levantei, meio aflita e zonza. - Eu quero ir para casa. Quero encontra Elizabeth e quero uma grande dose de chocolate. Entende? Então, isso não passará de um s...
-Não se atreva a dizer sonho. - ele me interrompeu.
O encarei durante alguns segundos. Minha garganta estava fechada, e a confusão estava exposta nos meus olhos. A dor, medo, angustia... Tudo ali, jogado no meio do meu rosto. Eu estava vulnerável, novamente. A sensação de segurança e paz, havia sumido. Me senti novamente como uma peça sobrando. Gin me encarava com uma certa dúvida. Como se eu o ofendesse com minha insegurança.
-Não me olhe assim... Leve-me para casa... - supliquei tocando suas mãos.
-Norah... Você não pode deixar Ilhad. Não agora. - ele apertou minhas palmas, antes de soltá-las. O observei enquanto levantava e me abraçava forte. O meu rosto colado ao seu peito me obrigaram a soltar algumas lágrimas. Me senti insegura e indefesa, naqueles braços grandes. Como uma peça fora do lugar. Como sempre.

Isso volta

Todo começo é complicado. Seja de uma conversa, de um namoro, amizade, ou até mesmo de uma prova. Tudo parece ser mais duro de se lidar quando não se conhece aquilo que está na sua frente. Começa a parecer quando você se senta na beira de uma piscina fria e vazia. Você começa a criar motivos e razões pra entrar na água e encarar aquilo de vez, porque, obviamente, você é forte o suficiente, mas o que você faz? Pega uma toalha e se seca, sentando-se em algum lugar no sol, onde sua segurança está salva e seca. A necessidade que se sente de estar seguro é bem maior do que qualquer sentimento. Menos quando você ama alguém. Sua segurança passa a não interessar quando o amor é incluído. Acho que dá pra interpretar o amor como um tipo de alucinógeno que te faz enxergar coisas onde simplesmente não existem, como por exemplo, uma ponte segura entre dois abismos. A parte engraçada dessa equação é que você não se importa se aquilo faz sentido, é saudável  razoável ou racional, o que importa é continuar se impulsionando pra frente, sobrevivendo a essa droga, tentando de todas as formas evitar a abstinência  e acaba se tornando um impulso vital, o que seria ótimo, se esse impulso fosse para você. Nunca é. O amor te faz querer parar de viver pra si mesmo e se começa a querer viver para o outro, mesmo que o outro não queira fazer o mesmo. O impulso que você recebe e passa pra frente, é como se fosse um carro batendo na sua traseira. Te faz acelerar, mas depois de um tempo acaba e a gasolina também se vai. Você fica parado na estrada esperando a primeira pessoa disposta a te dar outra pancada, pra te impulsionar de volta a vida. Mas isso nunca acontecerá da forma que você quer. Nunca. Aceite isso antes que a vida te massacre para te ensinar. E espero que antes que você saia pela porta, olhando pra trás, em algum momento da sua vida, lembre que a vida não olha pra trás quando te deixa no chão. Ela segue. Você segue. É assim que chegamos a onde estamos hoje e é assim que chegaremos no amanhã mais próximo. Não falo daquele amanhã que demora 24 horas pra chegar, falo daquele que geralmente fingimos que nunca irá chegar pra nos assombrar, mas sempre chega. Todos temos coisas que tentamos jogar pra longe, chutando do caminho achando que daqui um, dois ou dez anos, aquilo vai sumir, quando que acontece é justamente o contrário. Quando você percebe que tem que encarar algo que é complicado. Começa a parecer com como quando você está dentro de uma piscina fria e vazia e tenta entender o porque de ter se convencido a entrar nela e procura automaticamente a primeira borda para que você possa subir, se secar e ir sentar em algum lugar ao sol, onde sua segurança está a salvo e seca, porque obviamente você não é forte o suficiente pra ficar e encarar tudo. É esse o lado cômico da coisa toda. Ninguém é forte o suficiente.
Todo fim é complicado. Qualquer tipo de fim é complicado. Deixa de ser algo que você possa simplismente concertar e descomplicar. É como um enigma feito para não ser descoberto... Você pode tentar, mas jamais vai chegar a resposta, até que você desiste, e o tempo torna mais fácil e afável  O tempo é o grande filho da mãe que deixa tudo melhor, mas que só faz isso quando acha que tem que ser feito e essa é a desvantagem. A grande parte boa, é que assim a gente entende que nos não coordenamos absolutamente nada.